Noites boêmias
Caçando pinga barata em bar
Batom vermelho vivo
Sobe mais um andar
Caminhando devagar até a lua
Teme não encontra-la
Joga cerveja no nascer do sol
Pra tentar apaga-lo
Não encontra a lua
Muito menos apaga o sol
Vermelho nem vivo mais é
O bar começa a se fechar
O asfalto vira sua cama e cobertor
A água que cai sobre ela no outro dia,
Seu despertador.
segunda-feira, 12 de maio de 2008
noites boêmias
Hoje eu vi um anjo
Pousado na arvore que tem em frente a minha janela.
Ele nem chegou a entrar em meu quarto.
Acho que era pra não me assustar.
Ele tinha umas asas grandes.
Não só maiores que a árvore.
Todo dia eu me dou uma explicação nova
Pra dizer que tenho alguma estrutura
Ele parecia não precisar de estruturas
Tampouco devia ter medo de algo
Qualquer coisa era só voar
Era lindo ve-lo
Mas eu tinha medo
Medo de encará-lo
Porque ele parecia me ver através da janela e do corpo
Então quis assustá-lo gritando alto
Mas ele parecia que já estava acostumado a tais berros
Não sorria
Não reprimia
Não voou
Só continuava ali
E eu começava a me acostumar
E encarei-o com firmeza
Nessa hora ele voou
Uma paz me encheu por inteiro
E eu sabia que era porque ele estivera me cuidando
Não sabia o motivo de tal zelo comigo
Então inventei uma historia
Pra explicar.
(velha)
camisetão
Eu acordando com aquele seu camisetão
Num colchão velho de solteiro
Que me fazia ficar tão coladinha a você
A noite toda
E me fazia acordar já caindo do colchão
Com você todo esparramado
O travesseiro já no chão
E você acorda
E me dá um beijo,daqueles de começo de manha
Mais tarde a gente esquenta uma pizza
De duas noites atrás
E toma o final,daquela coca sem gás
E pega um ônibus pra ir ao cinema mais barato
Esperar na maior fila
Ah,mas vale a pena,com namorado...
Ai a gente come um cachorro quente
Com umas moedas que sobraram
A gente vai pra minha casa
E agradece porque meus pais ainda não chegaram
E namora mais um pouquinho
Aproveita e vê mais um filminho
Tudo bem agarradinho
Até que você tem que ir
E eu fico de te telefonar mais tarde
E finjo que esqueço
Só pra fazer um charme
Pra ver se você continua sempre afim,
Porque não dá pra te imaginar longe de mim.
árvore
Salve a árvore que existe em você
Não pode suas raízes,
Deixe a seiva correr solta
Sinta sobre as folhas,vento.
E sob a sombra,sento.
Confundo-me galho e viro,
Casa de passarinho.
Floresço,
Cresço,
Dou frutos,
Frutas,
Amadureço.
Esqueço pessoa que sou,
E tão convincente que de árvore fico,
Partem-me.
Tronco parte,
Parte coração,
Parte da folha parte.
Morro.
(velha)
domingo, 27 de abril de 2008
você,mãe
que você,mesmo sendo tão sua,
se dividiu um pouquinho pra que eu fosse eu.
repartiu sua alma em mil pedacinhos e me deu.
confiou-a à mim numa ligação eterna,
que mesmo quando longe,
ainda te sinto perto.
aqueles quase nove meses nos fizeram tão confidentes
de uma intimidade,amizade tão grande,
que às vezes me esqueço que literalmente,
não estou mais por dentro de você.
você encheu aquela ligação umbilical de coisas lindas suas,
que agora são coisas lindas minhas também.
se continuou em mim,e eu me procuro em você.
e me acho,
naquele espaço em que criamos quando só havia nós.
naquele lugar em que somos nossos próprios espelhos,
e através dele construimos nossa igualdade.
naquele espaço em que guardamos os risos,
os choros,os olhos...
todo o compartilhado.
naquele espaço que dilatamos pra caber eu e você,
cada vez maiores.
crescendo de amor a cada dia.
o meu eu,
é tão colado ao seu,
que a gente se mistura.
