Belo Horizonte,5 de Julho de 2008
Olívia,te prometi uma carta uma vez,e cá estou.Cumprindo minha palavra.Sei que já passou tempo demais,e que esta carta não está chegando na hora que você gostaria.Mas mesmo que atrasada há anos,espero que deixe de lado a última vez que nos encontramos e que aceite-a,nem que para jogá-la fora,ou rasgá-la assim que ler o remetente no envelope.
Quando disse certa vez,no começo,que gostaria de uma carta eu não pude escreve-la.Bem,comecei várias vezes,mas não sabia o que pôr no papel.Também porque as coisas eram recentes pra que eu me expusesse tanto a alguém que por vezes ainda era capaz de estranhar.
Mais de uma vez,disse a você que tinha a sinceridade como uma de minhas maiores virtudes.E você dizia o mesmo ao seu respeito.Bem ou mal,nunca acreditei.Achava que estava sempre brincando de amores e brincando de me amar,quando olhava nos meus olhos e dizia,Amo você.
No seu primeiro "amo você",eu disse que responderia que amava você quando isso se tornasse recíproco.Você,do jeito que é,nunca ligou,nem me cobrou.Apesar de continuar falando incansavelmente,nas horas mais inoportunas que me amava.
Infelizmente,com todo meu orgulho e egocentrismo,só pude constatar e aceitar esse amor agora.
Seria prepotência demais de minha parte pensar que com essa simples carta,atrasada dois anos,você voltaria para mim.Por isso deixo claro,que apesar de meu maior desejo seja tê-la em meus braços novamente,este não é o intuito principal desta carta.
Para dizer a verdade,nem sei porque estou escrevendo-a.Mas hoje acordei ao avesso.Trocando os pés pelas mãos,depois de sonhar com você toda a noite.Deixei meu corpo me levar,e descobri que meu corpo,só me levava a você.
Queria que ficasse claro:na última vez que nos vimos eu não estava em mim.
Lembra,uma vez você me disse que dentro de nós moram várias pessoas diferentes,e que são essas pessoas as responsáveis por nossas trocas de humor,nossas mudanças...Pois então,quando você dizia isso eu ria da sua cara.Não falava,mas achava que você era louca.Mas depois de refletir,concordo com você em gênero,número e grau.
Eu era outro aquele dia.E sabe,eu que permaneci constante e organizadinho,como você mesma me caracterizava,durante toda a vida,mudei.
Ainda não pintei o cabelo de verde limão como você gostaria que eu tivesse pintado na Copa,dizendo pra me convencer:"Ah,mas vai ficar show,xuxu!Combina tanto com os teus olhos.Pinta vai,pinta pelo Brasil.Ou pinta por mim,tanto faz..."
Mas parei com a musculação que você tanto odiava por julgar coisa de velho e de gente chata.Estou tendo aulas de circo.Imagina,eu que sorria tão pouco,sempre preocupado com o trabalho,fazendo circo.
Bem que você dizia que o trapézio era uma terapia.
A primeira vez que te vi,me impressionou muito seu caminhar independente e seus olhos nostálgicos.Diria que nem era deste século,não fosse pelo cabelo rosa-choque e o piercing na língua.Engraçado,apesar de ter achado-a uma completa poluição visual.Referindo-me à suas roupas chamativas e com estampas diferentes,desde o primeiro momento que me olhou,foi como se um vento fortíssimo entrasse sem pedir licença.Um vento que me fez sentir tanta paz,que mesmo com a arrogância que me tratou quando fui aborda-la,te achei tão linda,que pela primeira vez em minha vida,não hesitei em insistir com alguém.
Você foi o melhor impulso que já me ocorreu.E ainda que esta carta seja pouco.Seja apenas um pedaço do que eu sinto,é o que me convém fazer agora.
Hoje,mais que todos os outros dias,desde aquele em que eu era outro,estou desesperado por de você.Porque era só você que me acompanhava em tudo no sonho desta noite.Era você,toda você,mas com a cara de outras mulheres.Nunca a sua.
Saí louco procurando pelo apartamento alguma foto,alguma coisa que ao menos me fizesse lembrar seu rosto.Pois não sei como me recordo de todos os detalhes,das unhas quadradas do pé aos cabelos cacheados,e não lembro do rosto.
Sei ter olhado para seus olhos e os achado nostálgicos à primeira vez que à vi,mas se procuro esses olhos para recordar-me,não os acho.
Incrivelmente,a única coisa que encontrei no apartamento,foi aquele seu CD da Adriana,pus-me a ouvi-lo atentamente.E atribuí a falta de seu rosto em minhas memórias àquele trecho "vem vambora,que o que você demora é o que o tempo leva".
Com carinho,seu velho Miguel.
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Um comentário:
mas me deu uma saudade do marcelo agora.
lindo, lindo!
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